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16 de setembro de 2025

abril

sabe quando nietzsche fala do eterno retorno? penso que a partir disso, a gente vive o mesmo dia infinitas vezes. e é massa que, em algum tempo-espaço, eu viva esses momentos contigo infinitas vezes, de verdade.

18 de junho de 2021

joana

o final de semana tinha sido cheio de coisa. foto de comida, foto de parto, foto de casamento... não sei onde que eu ia achar tempo pra editar tanta coisa.

era quase oito da noite quando um número estranho me chamou no whatsapp.

- oi, aqui é joana. você é verônica, né?

respondi que sim e prontamente ela perguntou se eu tinha horário durante a semana.

- eu queria fazer umas fotos nuas, umas nudes profissionais, sabe? vi alguns trabalhos teus e adorei. -ela disse.

folheei a minha agenda e tinha um horário disponível na sexta a tarde. ela não titubeou e já me pediu para marcar: sexta às 15h.

a semana passou correndo e deu tempo de editar e entregar tudo e um pouco mais. estava animada pra fotografar joana, já fazia algum tempo que eu não fotografava um nu artístico. fiquei em dúvida em qual lente escolher, mas escolhi uma 24-70mm. coloquei um rivotril na bolsa, porque nunca se sabe, né?

cheguei na casa de joana no horário combinado. ela morava sozinha num apê no parnamirim. muitas plantas, piso de taco e um janelão na sala. me animei com o cenário, as fotos iam ficar bem boas.

joana estava com um vinho na mão e me perguntou se podia tirar a roupa. eu disse que sim e finalmente parei pra olhar a modelo do dia. porra, joana era bonita pra caralho. as fotos iam ficar lindas. ela me ofereceu uma taça e não recusei, era um rosé que eu amo.

- adoro esse vinho. -falei, levantando a taça.
- ai, que bom! é meu preferido. -ela disse colocando mais vinho na taça dela.

não perdi tempo e comecei a registrar aquele momento e aquela mulher. ela tirou a roupa, sentou perto da janela e eu nem precisei orientar muito. as fotos foram saindo naturalmente, conversamos sobre um monte de coisa, política, gilberto gil, wes anderson. ela abriu outra garrafa de vinho e já tinha ficado de noite. não vi a hora passar, mas não tinha compromisso e fui ficando. em algum momento, entre um monte de vinho rosé e um papo gostoso, joana me encarou foi muito direta.

- porra, que tesão. - ela disse.

cheguei pertinho dela e disse baixinho - né?.

ela deu um sorriso e me beijou gostoso. aff. que beijo bom, que mulher gostosa. continuamos nos beijando, língua, nuca, orelha. ela colocou a mão por debaixo da minha blusa e foi uma ótima ideia não usar sutiã naquele dia. senti a mão dela de leve no meu mamilo, que estava durinho. ela levantou a minha blusa e começou a massagear meus peitos enquanto beijava meu pescoço. eu podia sentir que estava molhada pra caralho. afastei as mãos dela e comecei a beijar seu pescoço. ela gemeu baixinho e eu desci para beijar seus peitos. passei a língua no mamilo dela, que também estava durinho e ela gemeu mais uma vez. chupei os peitos dela, porra que delícia. toquei na buceta dela, que também tava molhada e massageei o grelo. nos encaixamos direitinho e ela meteu dois dedos em mim. começou devagar e foi aumentando a velocidade. acompanhei o ritmo.

- me chupa. - ela disse entre gemidos.

parei de meter, deitei ela no chão com as pernas abertas. eu amo o cheiro de buceta. beijei primeiro as coxas, enquanto fazia carinho nelas. a medida em que a minha boca se aproximava da buceta dela, podia sentir que ela tava explodindo de tesão, assim como eu tava. comecei a chupar ela e aproveitei pra me masturbar. pude sentir a buceta dela pulsar enquanto ela gozava. com a respiração ofegante, ela pediu pra me chupar. me colocou na mesma posição que eu tinha colocado ela antes, e meteu em mim sem dó. que delícia. pediu pra que eu ficasse de quatro, e eu prontamente me ajeitei. me deu dois tapas e beijou o meu cu. gemi alto pra caralho, que tesão. depois começou a me chupar e como ela chupava gostoso. não aguentei dois minutos (eu acho) e gozei. pude sentir o gozo escorrendo por todo lugar. deitei e ela deitou ao meu lado. olhei pra ela e sorri.

- porra. - disse ofegante e sorrindo.

ela me deu um beijo na boca e eu correspondi ao beijo. tava pronta pra começar tudo de novo. tinha sido gostoso demais.

11 de abril de 2020

heaven knows i'm miserable now

‌eu guardo muitas imagens bonitas de você. mas talvez a mais bonita seja daquele dia, que já era tarde da noite, entrando pela madrugada. estávamos no meu quarto e você vestia um camisão velho meu. ficava parecendo uma camisola em você. seu cabelo caía pelo rosto, bagunçado. ligamos o pisca pisca do meu quarto, e tudo ficou colorido. não que você já não estivesse iluminando bastante todos aqueles dias. você deitou ao meu lado e começou a acompanhar a música dos smiths, que tocava tinha algum tempo. sorriu pra mim e cantarolou sem voz "good times for a change". sorri pra você e se a gente emana alguma cor quando sorri, meu sorriso tinha todas as cores do mundo. você sorria, mas sem mostrar os dentes, e balançava a cabeça conforme a música, de olhos fechados. talvez essa seja a imagem mais bonita que eu tenha da vida. mas acho que percebi bem naquela hora e naquele momento que aquilo tudo era demais pra mim. se sentir preenchida é assustador, né? me desculpa que não te respondi direito nos dias que se seguiram, eu não ia saber o que fazer. me desculpa quando parei de tesponder. eu ainda sinto saudades, mas eu não ia saber o que fazer contigo. pareceu muito pra mim.

4 de dezembro de 2018

sete

I.

lembro da primeira vez que fui à sua casa sozinha. secretamente estava feliz por nenhuma das nossas amigas poder ir também. naquela noite choveu como nunca mais tem chovido aqui. casa amarela amanheceu debaixo d'água e eu acordei ainda transbordando de felicidade por estar ali. sua mãe não gostou.

II.

decorei seu cheiro. fiz carinho no seu cabelo e te escrevi vários poemas. sonhei que transava com você muitas vezes, mas nunca te disse. achei que estava indo muito bem em fingir que não sentia nada. todo mundo percebeu.

III.

acabei o namoro mas ainda transava com ele. você não era bonita e demorava dias para responder. era a primeira vez que eu paquerava com uma menina. te chamei pra sair várias vezes, nunca te conheci.

IV.

disseram que a gente se parecia. nunca achei. me apaixonei, escrevi um texto, um poema, pensei em você ouvindo música e quando andava pelas ruas da cidade. falei de você para o mar. finalmente podia escrever para uma mulher sem fingir que era um homem. acho que você me acha uma idiota. queria te conhecer de novo.

V.

vesti uma roupa nova e todo mundo elogiou. beijei você, quer dizer, você me beijou. tava nervosa, era a primeira vez que beijava uma menina. te chamei pra sair outra vez mas nunca mais nos beijamos. daqui pra 2022 a gente se beija de novo.

VI.

tu era um dia azul na praia. tu não tinha nada a ver comigo. nada. mas a gente conversava sobre tudo. tudo. tu me beijou, fez carinho no meu ombro e não saiu mais de lá. tu me mostrou o mundo inteiro quando me mandou descer e calar a boca. tu me mostrou o outro lado do mundo também e eu fui embora.

VII.

eu devia ter percebido quando o dia começou em confusão.


15 de novembro de 2018

primeiro encontro

"cruzei com tua mãe no corredor" você falou com meio sorriso na cara. eu não sabia o que pensar. eu não sabia o que pensar sobre muita coisa. naquele dia eu tinha planejado uma tarde inteira assistindo filme, mas não consegui fazer o download de tudo acontece em elizabethtown. você me perguntou porque eu queria assistir um filme tão romântico e me lembrou daquela cena que eles passam um tempão ao telefone. "que perda de tempo, né?" você disse. te chamei pra tomar um sorvete. que virou um café. que virou uma cerveja. mesmo numa segunda, mesmo debaixo de chuva. eu não tinha nada para fazer no dia seguinte, a gente conversava na mesma intensidade de duas pessoas que passaram dez anos sem se ver e precisavam colocar tudo em dia. olhei olho no olho pra você e sorri enquanto a gente ria sobre qualquer besteira que agora eu não lembro o que era. conversamos sobre o casal da mesa ao lado, que com certeza estava no primeiro encontro mas ninguém tinha coragem de beijar. eles eram muito bonitinhos. você me contou sobre seu pai, que te levou para aprender a andar de bicicleta em arcoverde. "por que tão longe?" te perguntei. você me contou sobre as histórias de terror que seu primo contava na antiga casa abandonada da sua vó, me falou que passou a acreditar em ET quando se perdeu no caminho entre a cachoeira e a fazenda onde passou parte da infância e também da vez que você e suas amigas -todas lésbicas- não puderam entrar num restaurante e vocês ficaram sem entender. já era tarde da noite, o bar estava quase fechando, quando você me pediu pra sentar mais perto e disse que eu ia acabar me molhando com a chuva, que tinha voltado a cair, se continuasse ali onde eu estava. continuamos conversamos, pedimos a saideira. estava muito distraída quando percebi que você não tirava os olhos de mim. tive vergonha -sempre tenho vergonha nesses momentos que antecedem um beijo-, você se aproximando, sua boca é tão linda. sem saber mais o que fazer, te beijei, de nervoso e de vontade. seu beijo tinha gosto de cerveja e cigarro de menta. quis te engolir, quis que você me engolisse. que delícia. depois da segunda saideira, você me disse que estava com muita vontade de dormir comigo. com a cara enfiada no seu pescoço, murmurei que também estava e perguntei se você não queria ir lá pra casa. você achou uma boa ideia e pedimos um uber. tive medo que ele nos expulsasse do carro enquanto trocávamos um monte de beijos. subimos, nos trancamos no meu quarto e acendi um incenso. deitamos juntas e nos olhamos. nos beijamos primeiro com o nariz, você sorriu pra mim. sua boca é tão linda. você me deu um beijo, passou pelo pescoço e desceu sua mão pelo meu corpo. seu toque era uma mistura de pesado e leve, fazia um carinho gostoso que me deixou arrepiada várias vezes. passou pela cintura, pelas costas, pela nuca, por meus seios. tirei sua blusa e você estava sem sutiã, apalpei seu peito esquerdo e passei com a mão por seu mamilo, você gemeu baixinho e então passei a língua por ele. sua mão desceu entre minhas coxas e eu fiquei ainda mais excitada, você passou com o dedo entre meus lábios -os de baixo- e eu estava molhada, você sorriu de lado e colocou dois dedos dentro de mim. gemi baixinho enquanto você ia e vinha pelo meu corpo. também te toquei e você também estava molhada. pediu para eu ir mais rápido. foi massa. você levantou meus braços - pensei por um microssegundo sobre o que você acharia dos meus pelos- e pediu para que eu fechasse os olhos. você me beijou e passou a língua por lugares que eu não esperava e foi muito gostoso, senti um arrepio diferente em cada toque. nós dormimos sem tomar banho, eu acho que eu estava meio bêbada. acordei com o sol que entrava pela janela que esqueci de fechar. sentei na cama e fiquei olhando os sinais das suas costas. tentei enxergar alguma constelação, não consegui. pouco tempo depois você acordou e sorriu pra mim, com uma voz rouca me deu bom dia. sorri de volta e você me perguntou se tinha alguém em casa, pois queria ir ao banheiro. imaginei que não tivesse ninguém e você foi enrolada numa toalha. eu não havia avisado a minha mãe que iria levar uma amiga.

25 de fevereiro de 2018

silêncio

você tateava meu corpo com dois dedos enquanto escutávamos macalé. acho que já estávamos há umas seis ou sete horas dentro do quarto. o lençol da sua cama estava todo amassado e já dava para ver duas das quatro pontas do colchão. às vezes eu sorria pra você e você sorria de volta. às vezes nossas respirações ficavam pesadas e às vezes eu sentia vontade de transar quando te olhava.

eu tentava beijar seus peitos mas você, ainda em silêncio, se esquivava e sorria pra mim como se dissesse "agora não". você continuou a tatear meu corpo com dois, três dedos, a mão inteira passava sobre meus cabelos, curtos. há pelo menos duas horas não trocávamos uma palavra. eu achei tão bonito quando você fechou os olhos para ouvir "vapor barato". você mordia seu lábio inferior e sorria, de olhos bem fechados.

comecei a cantarolar junto com a música e você me deu um beijo. mas foi como se estivesse tateando minha boca com a sua. afastei seu cabelo para o lado, te dei um beijo primeiro na bochecha, depois na sua boca e depois no seu pescoço. você sorriu meio boba e mostrou o braço todo arrepiado. te beijei com vontade, como se fosse a primeira vez.

sua mão percorreu meu corpo inteirinho, chegou aos meu peito e eu quis te beijar todinha. você sussurrou

- te amo.

e continuou a me beijar nos peitos.

12 de outubro de 2017

caetano veloso para embalar histórias de amor

o seu quarto cheirava a cigarro e incenso de alfazema. "é para purificação do ambiente", você disse lendo a caixa lilás. depois riu e contou que na verdade era para despistar o cheiro de maconha e de marlboro que ficava depois que você fumava. uma luz verde pulsava num dos cantos do quarto e você me chamou para sentar na sua cama.

olhei para a parede e perguntei sobre todas aquelas imagens coladas ali, meio galeria de arte. você me explicou cada uma delas e de onde vieram. "ah! aquele é de um museu que fui em buenos aires. eu gosto demais daquela cidade".

aí você me chamou pra mais perto. meio sem jeito, me deitei ao seu lado e você sorriu pra mim antes de começar a fazer carinho no meu ombro. borboletas voavam dentro do meu corpo inteiro e você percebeu quando me arrepiei.

tocava, claro, caetano veloso na vitrola que você tinha acabado de ganhar de presente dos seus avós. eu te contei sobre todas as vezes que meu pai me levava à praia ouvindo caetano a viagem inteira e só. daqui até serrambi. eu não me cansava de caetano. você sorriu e disse que certamente essa seria uma boa história para se transformar num poema.

talvez tenhamos passado horas falando sobre caetano veloso e toda aquela discografia que parecia infinita."mas eu prefiro jorge mautner", você concluiu e então me deu um beijo na boca e eu correspondi àquele beijo.

29 de setembro de 2017

para a menina que escuta mautner

eu queria te jogar um feitiço
pra que toda vez que você
escutasse jorge mautner
[de olhos fechados]
você lembrasse de mim
e percebesse que
eu não estou mais
em nenhuma música

ou estou?

prefiro que não.

24 de setembro de 2017

a outra menina de gêmeos

lembrei de uma vez, na mc donalds,
que você pediu sorvete e batatinha
para comer ao mesmo tempo
disse que gostava de salgado e doce

e de quando eu te falei do show de caetano
você me disse que preferia gil
como quando eu te falei que ele parecia um dia de sol
e você disse que estava mais pra um fim de tarde

ou em agosto, no bairro da várzea,
quando te pedi pra ficar
você precisava ir embora

mas já?

8 de setembro de 2017

rotina

atravessar as pontes da cidade com o vento batendo no cabelo e deixando tudo bagunçado. parar para observar os três prédios modernos e quadrados que se misturam com os casarões da rua do imperador. pensar em você. sentir o cheiro do rio, dar de cara com a aurora, com o cinema, com mais prédios quadrados e modernos. o teatro do parque. pensar em você. tomar um chá mate na imperatriz, olhar clarice lispector, imóvel, e querer tomar um café com ela. tu sabia que ela era de sagitário? achei que tu fosse gostar de saber disso. subir na loja de vinil, não achar nada de caetano. vendi o último quase nesse instante. tom zé é raridade, não acha em canto nenhum, tem esse de bethânia. eu não escuto muito bethânia. descobrir o refestança. encarar os olhos de rita lee, azuis, malucos. tu nunca me falou desse disco. levar as melhores canções de gil. personalidades. mais prédios modernos e quadrados, a rua que você mora. pensar em você. bem muito. ate cansar. subir no ônibus. que sorte seria se a gente se esbarrasse. buzina, laranja cravo, calor. pensar em você. chegar em casa. ouvir gil a tarde inteira pensando em você.

31 de agosto de 2017

quarta-feira

às vezes eu queria dormir pra ver se tudo isso passa. é um negócio que passa pelo meu peito e vai pro coração, depois para os meus ouvidos, minha cabeça. bem lá dentro da minha cabeça. são os instantes. sorrisos. os seus olhos inquietos e profundos. meu deus! sua careta dizendo que não gosta de bukowski (eu nunca sei escrever muito bem). seu sorriso quando eu te falei do meu pai. você olhando para os bebês na frente da igreja. a sua agonia me olhando (inquieta). minhas lágrimas em algum momento (talvez agora). e o seu silêncio agora. enquanto eu escrevo essas palavras. um oceano de silêncio, como se nós duas fossemos dois continentes. distantes. que nada tem a ver um com o outro. mas que eu tenho vontade de conhecer. meu deus, menina. o que você faz comigo?

28 de agosto de 2017

menina de gêmeos

- deixa eu colocar uma aqui.

já estava de manhã mas ainda estávamos ouvindo música. metade da festa dormia, metade estava bêbada demais para prestar atenção. a gente não. você colocou "com medo, com pedro" e disse que achava aquela uma das músicas mais lindas que gostava de ouvir.

- gil escreveu essa música pro neto dele. e é linda, porque é como se a gente tivesse medo de tudo, mas com pedro, parece que esse medo não existe mais, sabe? nem depois do fim do mundo, do fim de tudo. é como se pedro fosse uma proteção, como ter alguém assim.

você explicou. eu não sabia de nada daquilo e nunca tinha parado pra pensar na música daquela forma. depois você me disse que eu ia gostar da próxima e colocou "tigresa" para tocar.

mas aí você se levantou e foi conversar com outra menina.

27 de julho de 2017

desterro

É complicado. Eu nunca mais havia escrito nada na minha vida. Agora já estou no terceiro texto pois preciso transformar tanto sentimento em alguma coisa. Isso é desde que eu te conheci. Eu sinto uma constante vontade de chorar, mas não é porque estou triste. São muitas descobertas que não cabem dentro de mim.

Eu nunca tinha parado para ler nada de Drummond, mas olha só onde estou. Isso é algo que eu gosto de repetir porque eu nunca pensei que pudesse estar aqui novamente. Minha mãe tem uma biblioteca enorme, com muitos livros, mas só tem um de Drummond. Por sorte achei um trecho do poema que eu queria te mostrar. Mas eu nem sei se você gosta de Drummond.

Eu descobri que ela tem muitos livros de Mia Couto. Como eu te disse. É muita descoberta. E eu te achei linda. E eu coloquei a mesma música para tocar muitas vezes. Porque ela é linda. E me lembrou você.

Eu passei a tarde toda pensando em você.
Mas a verdade é que muita coisa não faz o menor sentido. Eu fico me perguntando, por exemplo, de onde veio tudo isso que eu ando sentindo. Como se todo esse sentimento fosse uma coisa muito intrusa dentro de mim.

Eu não posso definir como “amor”. Amor é o que eu sinto pelo meu último namorado. Você é algo mais como.

Descoberta.

É como descobrir todos aqueles livros de Mia Couto na estante da minha mãe. Ou passar a tarde procurando uma poesia de Drummond.

Eu não sei mais de nada, mas quando estava na praia, pedi para o mar que esse sentimento - que mistura medo, alegria, dúvida e descoberta - seja algo muito bom.

É muito bom estar de volta. E talvez isso seja muito mais sobre mim do que sobre você.

20 de julho de 2017

anita,

toda vez que eu sento na minha cama e leio as palavras que você escreveu, me sinto abraçada e com vontade de chorar. são lindas. eu penso: caralho. e não consigo pensar em mais nada.

19 de julho de 2017

um cão dos diabos

eu te falei que tinha desistido de escrever sobre amor. até que você entrou pela porta e perguntou se eu já tinha comprado o ingresso praquele show que eu queria ir tanto. te disse que ainda não, que ia esperar até o fim do mês e você sorriu pra mim e balançou a cabeça.

eu te falei que tinha desistido, mas sai do meu quarto e dei de cara com você na sala, coberta como qualquer bicho que hiberna no inverno enquanto lia pela milésima vez o livro de leminski que eu tinha te dado há uns quatro ou cinco meses.

é, eu tinha desistido mesmo e então você olhou séria pra mim dizendo que aquelas palavras eram como abraços que protegem a alma e o corpo. você apontou para o papel e disse que aquele poema de leminski que falava sobre amor lhe lembrava um poema de drummond que falava sobre amor. eu te disse que todas essas coisas sobre o amor eram na verdade resumidas numa frase de bukowski.

eu tinha te falado muitas e muitas vezes que não escreveria mais nada sobre amor, mas olha só onde estou.

18 de maio de 2017

Sofia

A primeira coisa que eu reparei em você foram as covinhas que seu rosto ganhava toda vez que você sorria. Eu só precisei de duas semanas para me apaixonar por você, e talvez nem estivesse tão apaixonada assim.

Dessa vez, foi tudo muito diferente.

Você não escutava as mesmas músicas que eu, você não assistia os mesmos filmes que eu, nós não frequentávamos os mesmos lugares, nem nossas ideias caminhavam para mesma direção. Você ficava sempre surpresa quando eu dizia alguma coisa sobre mim, porque nada do meu mundo fazia parte do seu. Era absurdo que mesmo com todas essas diferenças, eu ainda quisesse conquistar qualquer coisa em você.

O que mais me deixava pensativa em relação a você não eram todas essas nossas diferenças, não. Você era uma menina, eu era uma menina e todos aqueles sentimentos acabavam se misturando com a incerteza de que aquilo pudesse ser muito ilógico para você. 

Viramos amigas. Me sentia meio perdida em todas as festas que você me chamava pra ir, mas pelo menos dançávamos juntas e bebíamos a noite inteirinha. Eu até me divertia vendo com você todas aquelas comédias românticas que te faziam chorar. Nessas horas, acho que nossas diferenças sumiam e era bom viver todos aqueles momentos ao seu lado.

Eu gostava de fazer carinho no seu cabelo, na sua pele, que vibrava toda vez que eu te tocava, e de ficar olhando você fazendo o que quer que fosse. Ao mesmo tempo morria de medo que você desconfiasse que na verdade eu estava mesmo apaixonada por você. 

Nós nunca nos beijamos. Você nunca descobriu.

Nossa amizade acabou abrindo espaço para novas pessoas, comecei a namorar um cara mais velho e você seguiu sua vida. De forma tão crua quanto estas palavras que te escrevo.

Agora parece que todas aquelas nossas diferenças são como abismos, Sofia.

27 de junho de 2012

Maitê (você não sabe o que é o amor)

Maitê, eu tinha uma porrada de coisas pra fazer, mas preferi ficar olhando pra essas suas meias com estrelas coloridas, só porque você pediu.
Você de moletom, você me olha com desprezo, você cantarola "you don't know what love is" e ri da minha cara, você tem um belo par de peitos... e de olhos também.
Você me pede pra fazer carinho no seu cabelo cheiroso e aí você diz que estou embaraçando os fios. Você esnoba tudo de bacana que eu faço por você.
Olha, já fui rejeitado por muitas garotas antes, mas com você é diferente. Você é a pior de todas. Você gosta de me fazer de bobo. E eu fico aqui, sendo esse Narciso ao avesso, com essa de eterno apaixonado, escravo, otário, aprendiz de você, Maitê.
Você me atrapalha enquanto leio, você começa a chorar por um motivo desprezível no meio do jogo, você reclama dos filmes que eu escolho, você fala mal de Snow Patrol só pra me encher o saco.
Sua mãe não está em casa, o seu quarto está vazio, mas você nunca quer fazer amor comigo. Você mente pra todo mundo fazendo essa cara de mocinha que só eu sei que você não é. Você enjoada, você me pede pra ir embora.
E você não nega, e você se entrega quando diz:

"Volta amanhã."

19 de janeiro de 2012

Gabriela

Gabriela tomava o café em pequenos goles, parecia um passarinho. Ela era bonitinha. Conversávamos sobre poesia moderna e ela me disse que escrevia algumas coisas. Gabriela era inteligente, sabia uma porrada de coisas e o assunto fluía junto dela. Ela tinha conversa, das boas. Esse foi nosso primeiro encontro.

O segundo encontro foi diferente. Levei o violão, toquei algumas músicas, Gabriela sorriu e bateu palmas e cantou junto comigo. Paguei um sorvete pra nós dois e desatamos a conversar. Tocamos e cantamos algumas outras músicas.

Começamos a sair mais vezes e entre os encontros estavamos sempre dando um jeitinho de nos falar. Viramos amigos, fui almoçar na casa dela e ela conheceu minha mãe. Gabriela me tacava elogios, me enchia de abraço e tinha um cheiro muito gostoso de coisa doce. Gabriela era uma gracinha.

Gabriela tinha uma blusa de renda branca e uma sapatilha vermelha. Cara, como Gabriela era bonita! Como seu sorriso era lindo, e como o sol parecia sempre ser amigo dela, iluminando-a por onde quer que fosse. Ah, Gabriela...

A vida com Gabriela seria perfeita. Teríamos três filhos, moraríamos num apartamento de três quartos e com azulejos azuis. Tocaria violão pra ela na varanda enquanto tomávamos café. E por fim, envelheceriamos juntinhos, e assim ficaríamos até o fim.

Era dia 2 de maio, era uma sexta feira. Coloquei o meu melhor tênis e fomos na melhor cafeteria da cidade. Nunca tínhamos ido ali, era a primeira vez. Pedimos dois cafés gelados, eu não enrolei e fui logo ao ponto. Gabriela ficou quieta e pegou no cabelo, como sempre fazia quando estava nervosa. Eu ri do silêncio dela. Gabriela sempre gostou de fazer suspense.

Mas, ela respirou fundo e disse que não. Que não eram assim que as coisas deviam funcionar e que não dava. E ainda disse mais, que não era porque gostávamos das mesmas coisas que tínhamos sido feitos um para o outro. Gabriela me disse uma penca de coisas desagradáveis naquele dia e foi embora, deixando os dez reais pra pagar o café. Fiquei ali por mais um tempo, tentando digerir o que tinha acabado de acontecer.

Passei no mercado, comprei o uísque mais barato que encontrei e decidi que se era pra tomar um pé na bunda, que fosse bem tomado! Com direito a ressaca e choradeira. E assim foi.

Mas, Gabriela não se foi como o uísque daquela noite. Gabriela ficou pela casa, ficou viva no meu nariz, nos rostos das pessoas que na rua passavam, no canto dos pássaros, nos outdoors, nas músicas, nos sorrisos e onde quer que eu olhasse.

Gabriela não voltou mais.

29 de setembro de 2011

Laís

Cinco horas da manhã e o sol pouco dava as caras. Laís dormia sob os meus lençóis. Olhei para ela, ela era tão bonita. Toda pequena e delicadinha. Sorri. Tinha em meus braços uma garota fantástica que não se incomodava em passar horas vendo filmes em preto e branco ou ouvindo The Who.

Lavei o rosto, preparei um café e fiquei observando o sol colorir o apartamento. Laís acordou, me encontrou na sala, ainda sonolenta e sentou-se no meu colo, sorriu pra mim, roubou o meu café. Naquele momento pensei que poderia dar a vida pela aquela mulher!
Como de costume, quando passava extensas temporadas em minha casa, Laís nos preparou um café da manhã e saiu para o trabalho. Pouco tempo depois, saí também. Voltei ao final do dia com o jantar. Hambúrgueres, os favoritos de Laís.

Laís não estava em casa, o que achei estranho. Mas, tempos depois, ela chegou. Perguntei o que tinha acontecido e ela disse que havia se enrolado no trabalho. Ofereci os hambúrgueres e ela disse que estava sem fome.
Foi ao banheiro, deixou o chuveiro por bastante tempo ligado e saiu de lá dizendo que ia embora, se desse voltava na próxima semana. Mas já?! Laís sempre dizia que adorava o tempo que passava aqui em casa. Resolvi não me opor.

Passaram-se os dias e Laís não aparecia. Não ligava, raramente atendia minhas ligações e pouco falava quando atendia. Havia algo de diferente na voz de Laís. Pensamentos avassaladores passavam pela minha cabeça. E uma súbita vontade de mandar Laís sumir de minha vida tomou conta de mim. Mas eu não podia fazer isso. Era Laís. Laís era excepcional. Laís era excepcional.

Dia, resolvi tomar satisfações. Fui até sua casa. Ela estava sozinha, lia Emily Brontë pela enésima vez. Perguntei o que estava acontecendo, porque ela estava agindo daquela maneira e se eu tinha feito algo errado. Ela me olhou com uma cara que misturava culpa e pena.

Disse que havia cansado. Cansou-se de mim. Que não era mais feliz ao meu lado e sentia um vazio. Laís se cansou de mim. Resolvi arriscar e pedi-la em casamento. Ela riu, riu um sorriso indecifrável e disse que não. Me deu um abraço e manteve os olhos no chão pelo curto tempo que fiquei ali, parado e sem ações.

Laís havia me deixado. Laís havia se cansado. Laís já não era mais minha, já não roubaria meus cafés nem sentaria no meu colo. Laís foi embora, escapou das minhas mãos sem eu nem perceber. Ela já tinha ido embora havia tempos.

8 de agosto de 2011

A última vez que vi Érica

A primeira vez que vi Érica, estava chapado demais para reparar noutra coisa que não fossem seus peitos. Joguei uma de minhas cantadas vagabundas, mas logo parei de insistir, saindo atrás de novos peitos e bundas.

Vi Érica uma segunda vez na casa de um amigo. Me contaram de minha mau sucessão algumas noites antes e ainda sim, não desanimei e resolvi me aproximar. Nem precisei conversar muito pra que Érica se encontrasse nos meus braços enquanto eu a enchia de beijos.

Ela falava muito pouco, quase nada e o pouco que conversava era sobre a psicanálise de Freud. Mas Érica encantava a qualquer um; fosse discutindo Freud ou fosse pelos seus cachos e seu corpão, que deixava qualquer um boquiaberto. Érica era linda.

Ela nunca deixava nossos olhos se cruzarem, nem mesmo quando estávamos na cama. Com o tempo, continuava a falar pouco e sofria de variações constantes de humor. Mas, quase sempre me esperava em casa com um ou dois fumos prontinhos. Adorava isso!

Numa noite qualquer, discutíamos muito e entre lágrimas e acusações injustas de Érica contra mim, resolvi sair e só voltar quando ela estivesse mais calma.

Já estava tarde e a Real da Torre, assim como eu, estava vazia. Andei um pouco, por aqui e por ali. Logo voltei pra casa, pensando em dar um beijo em Érica e esquecer toda aquela confusão.

Quando cheguei, Érica estava dormindo, a caixa de Valium ao lado e o copo d’água, como de costume. Dei um beijo em sua bochecha fria e me deitei ao seu lado.